12
abr
09

da páscoa & adjacências…

ainda não sei direito porque cargas d’água inventei de adentrar às lojas americanas (vulgo “lojas”) neste sábado de aleluia e de calor infernal! sábado também de judas, de praia, e mais: de liquidação de ovos de páscoa, meu deus (se arrependimento matasse, provavelmente não estaria aqui pra contar essa história)! mas o fato é que precisava (ênfase nesse verbo) comprar certas  coisinhas para minha residência manter uma mínima dignidade para receber visitas.

enfim, à porta da loja não se percebia nem se via grandes tumultos, então aparentemente sociável para uma compra brejeira num sábado de feriado (aleluia!). mas eis que essa calmaria era pura ilusão… de repente, começou uma gritaria vinda não sei de onde: “baixaram os preços! ovos tais e tais a R$14,90! é pra quem chegar primeiro! corre lá!” – e repetia: “é pra quem chegar primeiro!” pronto, bastou isso para que uma multidão advinda sabe deus de que lugar, não apenas literalmente corresse, como desse saltos ornamentais (à la “dos santos”) para conseguir chegar primeiro – e, claro, se esbofetear pra pegar um ovo e garantir uma páscoa doce e plácida (repito: plácida!). lógico, quem estivesse no meio – na frente, de lado, o que fosse – seria devidamente esmagado e por uma causa justíssima.

resultado: garota esperta que sou, fiquei de longe só olhando a grande confusão e obviamente dando gargalhadas por dentro – mas educadamente contida – de ver tamanha animosidade por conta de um ovo provavelmente “chôco”, quebrado e esmilinguido – já que era sábado (depois dessa cena, sem aleluia e sem glamour), e quem escolheu antes seu ovo de chocolate escolheu o melhor - dizem as más línguas. eu, sinceramente, dou de ombros – nem gosto tanto de chocolate assim! (mentira!)

bom, minha verdadeira intenção quando comecei a escrever era mesmo falar da origem dessa preciosidade que é o chocolate – a revista de história da biblioteca nacional deste mês traz uma matéria interessantíssima sobre o tema -, mas acabei me perdendo por outros caminhos, e o assunto me foi parecendo careta demais diante de uma multidão se estapeando por algumas dúzias de ovos de páscoa num sábado teoricamente de aleluia. afinal, convenhamos, falar do ser humano é, sem discussão, insuperável.

06
abr
09

modos de ver

“ver precede as palavras. a criança olha e reconhece antes mesmo de poder falar. mas existe ainda outro sentido no qual ver precede as palavras: o ato de ver que estabelece nosso lugar no mundo circundante. explicamos esse mundo com palavras, mas as palavras nunca poderão desfazer o fato de estarmos por ele circundados. a relação entre o que vemos e o que sabemos nunca fica estabelecida.

(…) a maneira como vemos as coisas é afetada pelo que sabemos e pelo que acreditamos (…) essa visão que chega antes das palavras, e que quase nunca pode ser por elas descrita, não é uma questão de reagir mecanicamente a estímulos  (…) só vemos aquilo que olhamos. olhar é um ato de escolha (…) nunca olhamos para uma coisa apenas; estamos sempre olhando para a relacão entre as coisas e nós mesmos. nossa visão está continuamente ativa, continuamente em movimento, continuamente captando coisas num círculo à sua própria volta, constituindo aquilo presente para nós do modo como estamos situados.

(…) logo depois de podermos ver, nos damos conta de que podemos também ser vistos. o olho do outro combina com nosso próprio olho, de modo a tornar inteiramente confiável que somos parte do mundo visível (…) a natureza de reciprocidade da visão é mais fundamental do que a do diálogo falado. e com frequencia o diálogo é uma tentativa de verbalizar isso… uma tentativa de explicar como, quer metafórica ou literalmente, ‘você vê as coisas’, e uma tentativa de descobrir como ‘ele vê as coisas’”.

john berger, em modos de ver

01
abr
09

o olhar

“ele era um andarilho.

ele tinha um olhar cheio de sol

de águas

de árvores

de aves.

ao passar pela aldeia

ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.

o silêncio honrava a sua vida.”

manoel de barros, em poemas rupestres

31
mar
09

outono-inverno

muita gente acha que o outono no rio é a estação mais incrível para se viver a cidade, com as quais concordo mais do que 100%. as causas não são difíceis de adivinhar: o clima é bem mais ameno que o do verão (quando a cidade vira um caldeirão infernal), de vez em quando cai uma chuvinha marota (aquela abençoada e providencial), faz sol suficiente pra pegar praia e aproveitar o dia (pedalar, correr, flanar), e também, ao anoitecer, vai chegando um friozinho gostoso, aquele no ponto. enfim, clima que só deve existir igual nos arredores do paraíso.

só que, como felicidade de pobre dura pouco, esse “manjar” não ultrapassa os 3 meses escritos pelas leis da natureza desde que o mundo é mundo; e, portanto, depois do outono, automaticamente chega o inverno e com ele aquele frio de congelar ossos, alma e pensamentos. bom, mas como para esses problemas sazonais não há muita solução, o que resta é “dançar um tango argentino” e esperar que a próxima primavera cumpra a função de fazer renascer a vida em multicores, para que de novo venha o verão, e como ele o outono seguinte…

29
mar
09

jornalismo

“meu distindo leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. não leiam mais. saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos, simplesmente, às favas”.

rubem braga, em mau humor – uma antologia definitiva de frases venenosas, de ruy castro

26
mar
09

manchete, marchete, machete?

meu caro amigo borduna escreveu muito bem sobre tudo o que gostaria de ter dito a respeito do show de silvia machete, que além de cantora é também um tanto de outras coisas, entre elas ser performática ao ponto de usar um pombo na cabeça (que pode muito bem ser simplesmente um passarinho brejeiro – e só). bom, o que importa mesmo é que ela canta super bem e tem tudo pra virar celebridade-anti-instantânea. evoé!!

25
mar
09

honestidade

“não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera”.

nelson rodrigues

23
mar
09

que loucura!

“a loucura é relativa. quem pode definir o que é verdadeiramente são ou insano? mesmo agora, correndo pelo central park, usando roupas roídas de traças e uma máscara de cirurgião, gritando slogans revolucionários e rindo histericamente, ainda me pergunto se o que fiz foi realmente tão irracional assim. porque, querido leitor, nem sempre fui este que passou a ser popularmente conhecido como ‘o louco de nova york’, parando a cada lata de lixo para encher minhas bolsas de compras com pedaços de barbantes e tampinhas de garrafa. não, senhor – já fui um médico altamente bem-sucedido, vivendo no quarteirão mais chique do east side, circulando pela cidade numa mercedes marrom, elegantérrimo nos tweeds de ralph lauren”.

woody allen, em que loucura!

22
mar
09

mama áfrica – a grande raiz

há uns dias bateu vontade de escrever sobre a música africana - que descobri não sei exatamente quando, mas sei que desde então ela me acompanha de perto -, isso porque dia desses percebi que os ritmos que mais me influenciam nesse outono (isso varia de estação para estação) dela derivam: jazz, blues, soul, samba(-rock), rumba, salsa, e por aí vai… 

dos meus selecionados, que vão do rock politizado de fela kuti a caboverdiana cesária évora, passando pela famigerada dupla amadou & mariamsally nyolo, salif keita e baaba maal, fico com todos sem preferências.

o movimento da música africana é outro, claro, e talvez seja esse o motivo da carência de fãs por essas terras. a presença intensa dos tambores, a cadência diferenciada do idioma e os argumentos singulares das letras deveriam ser motivos de aproximação e não de afastamento.

bom, mas independentemente das causas é triste perceber que a grande raiz dos mais incríveis gêneros musicais sequer é (re)conhecida. e fica aqui o meu protesto.

13
mar
09

“benny moré, qué banda tiene usted!”

benny-more

alguém mais fã do músico benny moré do que eu não há. para quem nunca ouviu falar em tal criatura, o cara foi um dos maiores da música cubana. ouvi-lo é sempre um prazer indescritível, é como se você escutasse a leveza propriamente dita em forma de melodia – apesar de quase sempre prevalecer um ritmo mais para dançante. bom, e para quem nunca ouviu sua obra, favor comprar, baixar, pedir emprestado (não a mim!), seja o que for!




 

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